Acidente Vascular Cerebral isquêmico evoluindo do Transtorno de Estresse pós-Traumático em trabalhadora em regime de servidão: Relato de caso de agravo relacionado ao trabalho
DOI:
https://doi.org/10.33637/2595-847x.2025-299Palavras-chave:
estresse pós-traumático, trabalho escravo contemporâneo, doença relacionada ao trabalho, acidente vascular cerebralResumo
Este estudo apresenta relato de caso de uma trabalhadora uruguaia resgatada de situação análoga à escravidão em contexto de trabalho doméstico no interior de Minas Gerais, Brasil. A paciente foi submetida a condições de extrema vulnerabilidade: privação de liberdade, isolamento social, não pagamento de salário, ameaças, violência simbólica, testemunho de agressões físicas e sexuais contra outro trabalhador e ocultação de sua real condição aos serviços de saúde. Após episódios intensos de estresse psicossocial e maus-tratos, desenvolveu quadro de acidente vascular cerebral isquêmico (AVCi) e sintomas graves de transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). O estudo articula a narrativa clínica ao conhecimento neurocientífico sobre os efeitos do estresse crônico e do TEPT, demonstrando a associação entre a exposição prolongada a situações traumáticas e alterações neurobiológicas (como disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal - HHA e da sinalização glutamatérgica), e aumento do risco cardiovascular, especialmente de AVC. Revisões sistemáticas recentes e estudos longitudinais corroboram essa associação, indicando que o TEPT é um fator de risco independente para eventos cerebrovasculares. O caso destaca a complexidade do adoecimento físico e psíquico associado ao trabalho em condições análogas à escravidão, evidenciando a importância de abordagens intersetoriais e da responsabilização dos empregadores. Reforça-se a urgência de ações públicas de prevenção, acolhimento, reparação e reintegração das vítimas e ampliação de estudos empíricos sobre os impactos à saúde de trabalhadores resgatados em situação de servidão contemporânea no Brasil.
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